webJudaica.Com.Br
Seu portal Judaico na Internet
29/Jun/2017
Tamuz 5, 5777

Sign in with Facebook

Religião Judaica

Ética Judaica

Globalização ? os riscos e benefícios de um mercado mundial

A existência de instituições comerciais mundiais tem fortes defensores e críticos mordazes. O que tradição judaica tem a nos dizer sobre este fenômeno?

A Globalização refere-se à integração crescente das economias de praticamente todas nações do mundo numa economia global mais unificada em que forças de mercado são dominantes e as companhias multinacionais têm um papel importante.

Este processo tende a despertar reações extremas. Alguns comentaristas econômicos a vêem com uma admiração praticamente messiânica: ela traz crescimento, democracia, paz e integração de culturas, levando à fraternidade. Outros tendem a demonizá-la e adotam uma visão pessimista do mesmo fenômeno: traz a pilhagem de países pobres, o colapso das estruturas sociais e de autoridade tradicionais, competição e ressentimento que levam à discórdia e a destruição de culturas nativas, resultando numa cultura mundial nivelada por baixo.

Para que possamos conhecer a abordagem judaica a estas questões, precisamos fazer uma reflexão fundamental: o processo de globalização não é um fenômeno realmente novo. Os grandes impérios dos antigos Oriente Médio e Oriente Próximo também uniram mercados e impuseram a cultura cosmopolita do conquistador a uma multidão de reinos menores e mais pobres. Os Sábios do Talmud vivenciaram este processo e tiveram um número de reflexões esclarecedoras a respeito disso.

Nossos antigos rabinos certamente sabiam como apreciar os benefícios econômicos da globalização, a capacidade de desfrutar dos produtos de muitas nações por um preço razoável e um esforço mínimo. O Talmud nos conta: "Rabi Ben Zomá (...) costumava dizer: 'Quanto esforço Adão tinha que fazer para comer pão! Tinha que arar, semear, juntar, amontoar, debulhar, selecionar, tipificar, peneirar, amassar e assar. Só então podia comer. Eu acordo e acho tudo preparado para mim! (...) Todas as nações do mundo saem para suas jornadas e chegam à minha porta, e eu acordo e encontro tudo isso diante de mim'". (1) Portanto, estes apaixonados pela globalização podem encontrar apoio para seus pontos de vista na tradição judaica.

Por outro lado, outros líderes judeus estavam bem conscientes de que o desenvolvimento econômico poderia ser uma ferramenta de dominação e de decadência moral. Quando Rabi Yehuda elogiou os romanos ao dizer: "Estabeleceram mercados, construíram pontes e fizeram casas de banho", Rabi Shimon bar Yochai respondeu cinicamente: "Estabeleceram mercados para que houvesse lugar para as prostitutas; casas de banho para se purificarem e pontes para coletar pedágios". (2) Parece que as organizações não-governamentais quem protestam contra o impacto destrutivo da globalização também têm um precedente muito importante!

No entanto, é muito importante notar que Rabi Shimon bar Yochai não negou os benefícios dos mercados nem das casas de banho, como aprendemos da continuação deste mesmo relato. O Talmud nos conta que as autoridades romanas procuraram punir o Rabi por suas palavras; ele então se escondeu com seu filho por muitos anos até que o decreto foi rescindido. Assim que deixou a caverna onde se escondeu, decidiu que tinha fazer algo de prático para ajudar a humanidade. Seu modelo, declara o Talmud, foi Yaacóv Avínu, o Patriarca Jacob. A Torá relata que quando Jacob chegou a Shechém, ele "agraciou" (vaichân) a cidade (Gênesis 33:18). Nossa tradição explica que ele a agraciou com alguma espécie de benefício material ao ensinar exemplos específicos de um mercado ou de uma casa de banhos!

Então vemos que os mercados podem ser tanto um inimigo mortal no qual podemos arriscar nossas vidas ou uma fonte de benefícios para as pessoas, quando colocamos para fora o nosso modo de estabelecê-lo. Qual é a diferença? Precisamos examinar mais cuidadosamente as diferenças entre "globalização a la Jacob" e "globalização a la Império Romano". Vejamos:

1. INTENÇÃO: A declaração de Rabi Shimon de que a intenção dos romanos era a obtenção de auto-indulgência e do auto-engrandecimento ecoa por uma passagem muito semelhante no Talmud (3). Por contraste, a intenção de Jacob era a "graça a cidade", mostrar-se amigável aos habitantes.

2. MORALIDADE: Os romanos usaram o mercado como um local para a imoralidade como, por exemplo, a prostituição. Por comparação, sabemos que a família de Jacob, durante a estadia em Shechém, era extremamente zelosa da moralidade e da modéstia.

3. COMPULSÃO: O supracitado versículo em Gênesis declara que Jacob agraciou as faces (penê) da cidade. Os comentaristas explicam que ele na verdade não entrou nela, mas estabeleceu seu acampamento, e seu mercado, na periferia. Isto demonstra um desejo de atrair, mais do que forçar, os residentes, para que tirem proveito dos benefícios do mercado. Isto é muito diferente da abordagem peso-pesado de Roma.

4. RESPEITO PELA LEGÍTIMA LIDERANÇA LOCAL: vemos na Torá que Jacob tentou trabalhar com o rei e príncipe de Shechém, que obviamente desfrutou do apoio dos cidadãos. O Midrash declara que ele enviou presentes a todos os principais ministros (4).

5. CONSISTÊNCIA: Um das queixas contra a globalização é que os países ricos que tentam impor empresas comerciais em países em desenvolvimento estão mais preocupados em entregar estas mesmas instituições em troca de favores políticos especiais. Vemos que Jacob não só encorajou instituições comerciais eqüitativas, como também deu o exemplo ao pagar o preço integral por seu campo. (Gênesis 33:19)

A globalização pode ser muito benéfica tanto do ponto de vista econômico quanto humano, contanto que tanto os poderosos grupos multinacionais quanto as culturas que os adotam a mantenham em perspectiva. Mercados mundiais são uma boa base para a prosperidade e o entendimento, mas devemos ter cuidado em não seguirmos o exemplo de Roma, que os utilizou como uma ponte para a imoralidade e a dominação. Devemos seguir o exemplo de Jacob, que percebeu que o mercado é benéfico quando tem graça, com senso de proporção e de propriedade.

FONTES:
(1) Talmud da Babilônia, Berachot 58a.
(2) Talmud da Babilônia, Shabat 33b.
(3) Talmud da Babilônia, Avodá Zará 2b.
(4) Bereshit Rabá.

O Judeu Ético Edição N.115 - 02 de julho de 2003
Rabino Dr. Asher Meir
The Jewish Ethicist, um programa do Business Ethics Center of Jerusalem.
tradução: Uri Lam (M.A. em Filosofia) - 04 de julho de 2003.

Fonte: Business Ethics Center of Jerusalem
Indique para um amigo!
Para continuar vendo o conteúdo deste site, você deve estar logado!
Utilize sua conta no Facebook ou feche esta janela.
Sign in with Facebook [Fechar]