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01/May/2016
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Festas Judaicas (Chaguim)

Iom HaSho

As Crianas da Arca

Com a exploso da Segunda Guerra Mundial, dois mundos diferentes se juntaram, quando quinhentas crianas judias foram hospedadas por famlias crists, no interior britnico.

H mais de sessenta anos atrs, uma onda de anti-semitismo invadiu a Europa. Junto a esta onda tempestiva, havia uma "Arca" no muito conhecida, um refgio para algumas das sofridas crianas judias.

A historia desta Arca comea em Londres, no dia 31 de agosto de 1939, trs dias antes da exploso da guerra contra a Alemanha. O governo britnico decidiu evacuar todas as escolas de Londres, por questes de segurana, para o interior da Inglaterra. De acordo com o plano, cada escola em Londres seria transferida para um vilarejo onde as crianas seriam hospedadas nas casas dos habitantes locais. Porm, os preparativos exatos para o alojamento, alimentao e outras necessidades s seriam providenciados depois que as crianas chagassem, pois o governo queria guardar segredo em relao a essas escolas at o dia da evacuao de emergncia.

Uma destas escolas era a Escola Secundria Judaica (Jewish Secondary School), observante da Tor, com quinhentos estudantes. Alguns deles foram criados na Inglaterra e outros eram crianas refugiadas que tinham chegado recentemente da Alemanha e ustria (na maioria dos casos, essas crianas refugiadas chagavam sem os seus pais). As crianas dessa escola judaica, junto ao restante da equipe, foram enviadas ao vilarejo de Shefford e seus arredores. A doutora Judith Grunfeld, diretora da escola, descreveu a experincia em seu livro "Shefford":

"As Crianas de Israel" era, para a maioria dos habitantes do vilarejo, somente um termo bblico que trazia mente uma imagem de caravanas que perambulavam pelo deserto, em direo Terra Santa. Uma senhora temente a D`us, quando soube quem havia chegado, chamou seu marido, alvoroada: "Tom, venha logo! As crianas de Israel da Bblia esto aqui". Outros associavam a palavra "judeu" a comerciantes, ou haviam adquirido uma imagem dos judeus lanando chifres em suas testas. "Mas vocs no tm chifres!", disse uma mulher verdadeiramente surpresa a um dos meninos que acolheu em sua casa".

Professores e ajudantes me contaram das grandes dificuldades que nossas crianas encontraram quando chegaram em seus lares adotivos. Em todas as casas havia uma refeio de boas vindas com comidas especiais que foram preparadas especialmente para elas. Os pais adotivos e suas prprias famlias observavam ansiosamente o novo habitante de sua casa e animadamente antecipavam como fariam a primeira refeio: uma omelete com presunto, sinal de boas vindas que fora preparado para elas com muito amor e carinho.

Em todos os lares a mesma histria se repetia. A criana, tmida e cansada, no tocava na comida, sacudia a cabea e dificilmente bebericava algumas gotas de ch. Elas mostravam sinais de embarao. Algumas ainda conseguiram dizer palavras como "obrigado", que vinham de seus coraes, mas mesmo assim acabaram criando uma atmosfera de desapontamento e frustrao nas casas em que estavam hospedadas e no vilarejo...

Mais tarde, foi explicado que aquelas crianas foram educadas a observar as leis dietticas de acordo com a Bblia e que algumas delas tinham acabado de vir da perseguio nazista e no falavam ingls, estando conseqentemente incapazes de explicar porque recusavam aquela deliciosa refeio que lhes fora preparada com tanto cuidado e amor, porm estavam verdadeira e sinceramente gratas por toda a bondade que os habitantes demonstravam a elas.

Desentendimentos religiosos

Os habitantes do vilarejo tentavam entender, mas encontravam dificuldades para aceitar aquelas "crianas estranhas". E a situao piorou com a chegada do Shabat. Quando o sol comeou a se pr, as crianas e seus professores se reuniram para cantar as rezas tradicionais do Shabat. Depois, comeram a refeio do Shabat que a escola preparou e, mais tarde, voltaram casa de seus anfitries. A doutora Grunfeld descreve o que aconteceu em seguida: "Johnny, ligue a luz enquanto eu seguro o balde", o fazendeiro chamou-o do estbulo para lhe mostrar suas vacas. "Sonny, tenho que ir at a estufa de plantas, venha comigo e segure a tocha para mim". "Jackie, coloque a chaleira no fogo, por favor, pois Granny quer uma xcara de ch". "Aqui tem dois xelins, corra at o bar e compre um mao de cigarros".

Entretanto, as crianas no podiam fazer o que lhe pediam, pois no queriam violar as leis do Shabat. Os habitantes no entendiam por completo que as crianas guardavam essas leis e decidiram que no estavam mais dispostos a t-las em suas casas.

As crianas dormiam, mas os moradores no. No bar do vilarejo havia uma discusso... O prprio pastor estava desapontado. Ele esperava encher sua escola de domingo e encontrar novos membros para o coro da igreja. Os vizinhos se reuniram e, na manh seguinte, s havia um assunto sendo comentado no vilarejo. Todos concordavam em no mais aceitar esta mentira. Eles foram enganados ao cumprirem seu dever nacional. Eles queriam levar aquelas crianas para suas casas, seus coraes, suas igrejas e escolas de domingo. Queriam torn-las parte de sua prpria famlia. Com aquelas crianas, porm, isso era simplesmente impossvel. Elas eram totalmente diferentes do que eles esperavam e algumas delas choravam o tempo todo. Elas no conseguiam se comunicar, mas tinham os olhares de animais caados. As maiores, muitas delas charmosas e educadas, falavam e riam em lnguas diferentes e no comiam nada alm de po e bebiam somente limonada. No se reuniam nas rezas, tinham livros estranhos em suas malas, quadrados de algodo com franjas por baixo de suas camisetas. Tudo parecia uma verdadeira confuso. "Devemos organizar a volta delas para Londres e troc-las por crianas de nossa prpria raa e f".

Enquanto os habitantes da vila estavam chateados, as crianas, inconscientes de todo o inconveniente que causavam, dormiam pacificamente nas variadas casas onde a revolta se formava. Os sidurim (livros de rezas) estavam ao seu lado na cama, o Tzitzit (a roupa quadrada com franjas) balanando na cadeira, as kipot em suas cabeas. Elas desconheciam o plano que lhes dizia respeito. "Mas o guardio de Israel nunca dorme ou se descuida de seus filhos".

Na manh seguinte, o sol nasceu e as crianas acordaram. Algumas delas, j descansadas, tinham um sorriso cativante, outras acariciavam o cachorro ou o canrio da casa, algumas tinham uma maneira adorvel de dizer "muito obrigado" e pareciam to patticas que faziam qualquer corao se derreter. Elas eram muito honestas e possuam boas maneiras... Embora fossem to jovens, tinham um jeito especial de cuidar umas das outras e de seus irmos e irms menores. Seus hbitos eram impecveis, nunca pediam nada. Era muito estranho.

Ningum nunca soube dizer o que aconteceu, mas um fato verdadeiro que, algum tempo depois, a senhora B. disse senhora H. que a criana de quem ela cuidava se adaptou muito bem e a senhora H. respondeu elogiando tambm a menina de quem cuidava. O reitor e sua mulher, o reverendo e a senhora A. McGhee levaram suas sete crianas refugiadas para um passeio no zoolgico de Whipsnade e se sentiram orgulhosos de si mesmos por terem meninos to bem comportados como eles.

Pouco tempo depois, via-se tzitzit recm lavados balanando no varal do belo jardim da casa da senhora K. e Moss, o dono da mercearia, adquiriu um suprimento de margarina casher, j que muitos clientes pediam por ela, pois "desta forma, Jackie (ou Freddie ou Bernard) poderiam comer um pedao de po com manteiga ao invs de comerem po puro o tempo todo". E a senhora F. foi ao quarto de Simon para apagar a luz, pois "eu sei que o garoto dormiria com a luz acesa a noite inteira, pois hoje o seu Shabat".

medida que os meses passavam, os habitantes se apaixonavam por suas "crianas judias". Tornaram-se familiares com as tradies judaicas e comearam a respeitar as crianas por permanecerem leais s suas tradies e crenas mesmo estando num ambiente cultural diferente do delas. Afinal de contas, muitas das crianas eram refugiadas de guerra e seus pais, se ainda estivessem vivos, estavam nas mos dos alemes. Porm, mesmo assim, as crianas permaneceram fiis educao religiosa que receberam de seus pais.

Amizades que duram para toda a vida

As crianas ficaram na vila por seis anos. Estes pais adotivos respeitaram a sua f e religio e no foram missionrios. Mais do que isso, comearam a encorajar seus refugiados a observar todas as tradies judaicas e os meninos a usarem suas kipot. Em Yom Kipur, uma das mes do vilarejo percebeu que sua filha adotiva no colocou os sapatos de pano ao invs de sapatos de couro. Esta me crist tinha se familiarizado com as tradies judaicas e sabia que os judeus no usavam sapatos de couro naquele dia sagrado. Ento, com voz segura, perguntou jovem menina: "Por que voc no coloca seus sapatos de pano?".

As amizades que cresceram entre as crianas judias e as famlias crists que as hospedavam durou por muitos anos, por muito tempo depois que as crianas deixaram Shefford. Como a doutora Grunfeld escreve: "Muitas pessoas vindas da Amrica, Austrlia ou de Israel, para visitar a Inglaterra vo a Shefford para ver sua antiga famlia e para dar uma olhada no vilarejo. Presentes e cartes com votos de boas festas, cartes enviando "saudaes da estao" ainda chegam no pequeno vilarejo vindos de todos os lugares do mundo. Em muitos casamentos em Londres, um ano aps a guerra, os antigos proprietrios de Shefford so considerados convidados importantes e honrados entre os dos casamentos.

Enquanto, no continente Europeu, crianas morriam de fome e eram massacradas durante estes anos deprimentes, o vilarejo deu s crianas alegria e uma calorosa recepo. Havia uma fora dentro de ns que nos alentou e nos manteve alerta, e essa fora foi gerada pelas horrveis notcias que vinham do continente. Sabemos que D'us, que nos mantm vivos, perguntar um dia: "Onde voc esteve, e o que fez enquanto o seu povo foi jogado no inferno e Eu o mantive com vida?". Tentamos responder a este desafio e construmos uma comunidade de crianas s quais ensinamos a viver de acordo com a Tor e a beber de sua fonte de gua viva. Assim, tentamos construir um pequeno santurio enquanto muitos eram destrudos.

A doutora Grunfeld descreve a escola secundria (Jewish Secondary School) como a "Arca de No" percorrendo as ondas da grande inundao de dio contra os judeus na Europa.

A histria exemplar desta Arca serve como lembrete do fato de que, assim como Noach e sua famlia, somos todos filhos de um s D'us. E tambm nos lembra que, quando ns, as crianas de Israel, permanecemos fiis nossa prpria herana e crena, no h limites para ganharmos a amizade e o respeito dos outros.

As Crianas Sobreviventes da 2a Guerra Mundial
Yossef ben Shlomo haCohen

Autor: Eliana Didio
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