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23/May/2017
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Festas Judaicas (Chaguim)

Shabat

Dando um tempo...

Introdução: judaísmo e tempo intemporal

Parafraseando a analogia dos Salmos ("Mil anos a teus olhos são como o dia de ontem"), a história de um povo corresponde a um instante na eternidade do mundo. Apesar do relato histórico da vida do povo judeu apresentar um sentido tão cósmico, sua continuidade cultural-religiosa de três a quatro mil anos talvez seja a mais extensa que qualquer grupo étnico-religioso tenha alcançado.

Para o judeu devoto e consciente de sua história, o passado parece tão real quanto o presente, porque ele os concebe como intrinsecamente ligados um ao outro, dotados que são do mesmo propósito moral.

No sentido espiritual, o tempo se conservou intemporal! Depois das doutrinas sobre Messias, Ressurreição, Juízo Final, terem firmado raízes no solo parcialmente místico da crença judaica durante o período pós-bíblico, também o futuro se ligou ao passado e ao presente, sintetizados que ficaram numa certeza histórica indivisível: para o povo de Israel, a vida tinha assumido um objetivo grandioso bem delineado, como a planta de um projeto arquitetônico.

Poder-se-ia, em conseqüência, concluir apressadamente que, ao aprender o que se presumia fossem "verdades absolutas", a religião judaica estivesse condenada a um estado de permanente imobilidade e estagnação. Mas na verdade, enquanto o povo se agarrava tenazmente às principais doutrinas, princípios, atitudes e práticas tradicionais, sua evolução histórica era contínua, ajustando-se aos novos conjuntos de circunstâncias e às influências culturais do ambiente em geral e do espírito da época; em fase alguma da história judaica sua religião permaneceu estática.

Tempo e simbologia

O tempo é freqüentemente simbolizado pela Rosácea, pela Roda, com seu movimento giratório, pelos doze signos do Zodíaco, que descrevem o ciclo da vida e, geralmente, por todas as figuras circulares. O centro do círculo é considerado como o aspecto imóvel do ser, o eixo que torna possível o movimento dos seres, embora oponha-se a este como a eternidade se opõe ao tempo. O que explica a definição agostiniana do tempo: imagem móvel da imóvel eternidade. Todo movimento toma forma circular, do movimento em que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim e cai sob a possibilidade de uma medida, que não é outra senão a do tempo. Para tentar exorcizar a angústia e o efêmero, a relojoaria contemporânea não encontrou nada melhor, inconscientemente, que dar a relógios e despertadores uma forma quadrada, em lugar de redonda, simbolizando, assim, a ilusão humana de escapar à roda inexorável e de dominar a terra, impondo-lhe a sua medida. O quadrado simboliza o espaço, a terra, a matéria. Essa passagem simbólica do temporal ao espacial não chega, no entanto, a suprimir toda rotação em um ou outro sentido, mas oculta o efêmero para indicar tão-somente o instante presente no espaço.

Tempo humano X tempo divino

Na linguagem, como na percepção, o tempo simboliza um limite na duração e a distinção mais sentida com o mundo do Além, que é o da eternidade. Por definição, o tempo humano é finito e o tempo divino infinito ou, melhor ainda, é a negação do tempo, o ilimitado. Um é o século, o outro, a eternidade. Portanto, não há entre eles nenhuma medida comum possível.

Shabat e teopedagogia

Shabat é a celebração semanal da criação do mundo por D'us: "Em 6 dias, D'us criou os céus e a terra e no 7º descansou". Ao celebrar o Shabat, reafirma-se o contrato entre os homens e D'us. Como D'us "descansou" no 7º dia, assim o faz o povo judeu.

E D'us, por acaso, precisava ?descansar?? óbvio que não! Mas o próprio exemplo que Ele dá, no relato da Criação, corresponde às mais modernas concepções psico-filosóficas educacionais: o exemplo é fundamental! Quem é pai ou educador sabe o devastador efeito da frase: ?Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço...?Em termos técnicos, poderíamos dizer que isto gera uma dissonância cognitiva; voltando ao planeta Terra, nós, meros mortais, entendemos esta frase como uma bruta incoerência... gerando a dúvida! Afinal, o que devo fazer: o que me é dito ou o que me é apresentado como modelo real de ação?

Tempo sagrado X tempo profano

O Shabat designa um tempo sagrado, em oposição ao tempo profano. O descanso é santificado pelo pensamento da criação. Shabat, significando descanso  em hebraico vem do verbo lishbot, descansar, cessar, repousar, que também significa 'fazer greve'. Descanso também pode ser menu'há (repouso, descanso, tranqüilidade, calma, quietude) e hinafshut que significa literalmente 'retomar a alma'. Se o homem que observa o Shabat se lembrar da criação, também evocará a lembrança da saída do Egito, pois só os homens livres descansam. Não se trata apenas de abandonar todo trabalho, mas de banir do espírito todas as angústias e
opressões interiores: um descanso libertador da alma.

Santificação (ou: dando um sentido às nossas vidas)

Está escrito: "Recorda o dia de Shabat e santifica-o". O Talmud explica que, a cada dia da semana, deve-se preparar para o próximo Shabat. Preparar comidas especiais, limpar a louça e a casa, são exemplos desta mitzvá. O Shabat incrementa a crença na grandeza de D'us e deve ser um tema principal na vida judaica. O Shabat não é apenas um símbolo de fé, mas um meio de alcançar o descanso físico e mental, chegando assim ao rejuvenescimento espiritual. Somente conectando-se com os aspectos espirituais da existência, o homem pode lograr este rejuvenescimento.

Para ajudar o homem a firmar sua crença no "cessar de mais criação" do Criador no sétimo dia, o homem se abstém de certos trabalhos criativos no Shabat. Ao não acender o fogo, por exemplo, o homem mostra sua unificação com D'us. Assim como D'us cessou a criação, assim faz o homem.

O Shabat rompe a monotonia que governa nossas vidas durante a semana. Provê um propósito e um significado às vidas das pessoas, as quais se encontram freqüentemente com pouca idéia de aonde vão e porque existem. Dá ao homem uma oportunidade de conhecer acerca de si mesmo e de D'us, enquanto escapa temporariamente das cargas que o infligiram durante a semana. No nosso mundo acelerado, o Shabat oferece às famílias uma oportunidade de se sentarem juntas e se comunicarem como uma unidade familiar. Muitas famílias que respeitam o Shabat dizem que este é o único dia da semana em que toda família come junta.

Stress ? dando um tempo

Conta um midrash (Rabot 168,1):

"- Aonde vais?- perguntaram a Hillel os discípulos quando o viram, certa vez, sair de casa.
- Vou em busca de repouso para o meu hóspede!
- Tens algum hóspede em tua casa?
Respondeu o sábio com um resignado abater de ombros:
- O hóspede a que me refiro é a pobre alma que vive, como um forasteiro, em meu corpo.
Hoje aqui, amanhã onde estará?"

O respeito pela saúde é fundamental no judaísmo. Tanto que pikuach nefesh dochef kol averá (proteger a integridade física permite qualquer transgressão). Transgressão seria o conceito judaico original que iria teologicamente se desenvolver até o que chamamos hoje de pecado. Traduzindo de forma radical: pecado é o homem não se respeitar!

E para se respeitar e manter sua saúde física e mental, o homem precisa de um ?tempo?.

Vivemos num mundo em que "time is money", não se pode parar, o homem vive seu tempo freneticamente. Até seu tempo de lazer "tem que ser preenchido"- o que fazer nas férias, nos feriados, nos fins de semana... A dificuldade de lidar com o conceito de "tempo livre" gera angústia no homem moderno ? se o seu tempo não estiver ocupado, ele não tem sentido.

E o Shabat surge como um remédio anti-stress natural, sem contra-indicações...

Shabat, judaísmo e questões trabalhistas

Há um ditado que diz: "Mais do que Israel tem guardado o Shabat ? o Shabat guarda Israel".

O Shabat é mais do que uma instituição no Judaísmo. É a instituição da religião judaica. Seria possível a um historiador escrever duas histórias distintas dos judeus: a história exterior, isto é, como se houveram social e politicamente através dos tempos, numa crônica, um tanto sinistra, de perseguições, expulsão e dispersão, e a história espiritual dos judeus - a força que conseguiram haurir do seu ambiente. De certo modo lograram criar uma vida que lhes deu não apenas satisfação espiritual e a determinação de continuarem como um grupo, mas também uma sensação de bem-estar no meio de um mundo perturbado.

O Shabat, sem dúvida, se encontra no âmago desse mundo íntimo de paz e serenidade. A história espiritual judia não passa de uma série de dias de semana empregados nos preparativos para o Shabat.

Há uma estória na Guemará (Meguilá, 17 a) que conta:

"Certa vez, o senado romano planejou adotar uma lei que proibia a observância do Shabat e a prática do rito da circuncisão.

Rabi Reuben decidiu lograr os opressores. Disfarçando-se em romano compareceu perante o senado e disse: ?Detestais os judeus; entretanto os ajudareis a enriquecer mais se os fizerdes trabalhar sete dias por semana em vez de seis".

E o senado revogou a primeira proibição.

Rabi Reuben continuou: "Evitareis que eles se enfraqueçam se proibirdes o rito da circuncisão". E a segunda proibição também foi revogada.

O Shabat é um período para repouso espiritual, e para um intervalo na monótona rotina do labor cotidiano. Serve para recordar que a necessidade de ganhar a vida não nos deve tornar cegos ante a necessidade de viver.

O Industrialismo gerou um ritmo frenético, incessante de atividades, em que crianças, velhos, mulheres, homens ? enfim todos os empregados trabalhavam mais de 12 horas por dia, sem qualquer intervalo. Dia de descanso e férias são conquistas trabalhistas relativamente recentes no mundo ocidental.

Entretanto, milenarmente, o judaísmo já o vem praticando...

Erev Shabat, Rosh haShaná ? tempo judaico e descanso

É interessante observar que todo marcador temporal judaico é iniciado pelo descanso. O relato bíblico da Criação: ?Vaiehi erev vaiehi boker?(e foi tarde e foi manhã) determinou o início dos dias, no calendário hebraico, na erev (véspera, tarde, anoitecer): o dia começa com o descanso da noite. Isto gerou também o "efeito Orloff": em hebraico, hoje à noite é amanhã!

Desde épocas bíblicas, os meses e os anos do calendário judaico foram determinados pelos ciclos da lua e do sol. Pela lei tradicional os meses seguem o ciclo lunar, desde o Molad (nascimento, conjunção) até o novilúnio seguinte.

A tradição judaica reconhece numerosas afinidades entre a lua e Israel. Assim como o Sol representa a potência material reconhecida aos olhos de todos _ é o apanágio das nações, a Lua, brilho tênue no reino da noite, representa Israel, humilhada entre as nações na noite do exílio. A influência discreta da lua simboliza o lento caminhar das idéias do judaísmo. Mais um exemplo: o desaparecimento e depois reaparição da lua representam a eternidade de Israel, apesar das vicissitudes.

O ano novo judaico, desde o período talmúdico, Rosh haShaná, corresponde ao período (no hemisfério norte) do fim do ciclo agrícola anual ? o tempo do descanso da terra, para que se reinicie revigorado.

E a semana judaica também pressupõe um "tempo" para descanso, uma pausa, um "break", para que se inicie a semana com um novo vigor, físico e espiritual.

Para concluir, outra estorieta da Guemará: "Porque foi o homem criado no sexto dia? Para ensinar que, se um dia ele crescer de soberba, se lhe diga: ?A pulga veio antes de ti na criação". (Sanhedrin, 38 a)

Ou seja, ao mesmo tempo que o Shabat dá ao homem sua exata dimensão, lhe ensina a repensar a dimensão do tempo...

Fonte: Jane Bichmacher de Glasman - Professora da UERJ, do ISTARJ, escritora
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