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28/Jun/2017
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Biografias

Theodor Herzl (1860 - 1904)

Nasci em Budapeste, em 1860, perto da sinagoga onde há pouco fui severamente repreendido pelo rabino, por empenhar-me para que os Judeus sejam tratados com mais consideração e tenham maior liberdade. Com certeza, daqui a vinte anos, na porta da casa na qual eu nasci, na Tabakgasse, haverá um papel com os dizeres "Aluga-se".

Não posso negar que freqüentei a escola. A princípio, mandaram-me para uma escola primária hebraica, onde me tratavam com certa consideração, pois meu pai era um comerciante abastado. Entre as lembranças que guardo daquela época estão algumas surras que levei porque não sabia os detalhes do êxodo dos Judeus do Egito. Hoje, muitos professores gostariam de me bater porque me lembro com excessiva freqüência daquele êxodo.

Aos dez anos, fui enviado para uma escola real, onde dava-se preferência às ciências modernas. Na época, o homem em evidência era Lesseps, e eu concebi o plano de abrir um canal através do outro istmo, o do Panamá. Mas a minha aflição pelos logaritmos e trigonometria passou bem depressa por causa de uma tendência anti-semita que havia na escola real.

Durante uma aula, um dos professores explicou o significado da palavra "gentios", afirmando: "A eles pertencem os idólatras, os maometanos e os Judeus." Esta definição singular foi motivo suficiente para que eu saísse da escola real, optando, então, por uma instituição de ensino clássico.

Como meu pai jamais interferia no tocante aos estudos, matriculei-me em um Instituto Evangélico.

Nessa escola, os Judeus eram maioria e, portanto, não havia razões para queixas sobre anti-semitismo. Escrevi o meu primeiro artigo jornalístico na sétima série, porém não o assinei, pois, se o fizesse, teria sido condenado à reclusão escolar. Durante a última série, minha única irmã faleceu, aos dezoito anos. A tristeza tomou conta de meu pai de maneira tão profunda que, em 1878, mudamos para Viena.

Durante a semana de luto, o rabino Kohn veio nos visitar e me perguntou sobre os meus projetos para o futuro. Respondi-lhe que desejava ser escritor, ao que o rabino balançou a cabeça em sinal de desaprovação, e demonstrou sua discordância concluindo que a carreira de escritor não era uma profissão propriamente dita. Da mesma maneira, anos mais tarde, condenou o Sionismo.

Em Viena, comecei a cursar Direito. Participava de todas as travessuras estudantis, vivendo às custas da minha associação, até que, quando menos esperava, houve restrições a novos sócios Judeus. Àqueles que já eram associados foi comunicado, com muita amabilidade, que não precisavam dar baixa. Despedi-me, então, daqueles jovens generosos e comecei a estudar seriamente.

Formei-me em Direito em 1884 e, sob as ordens de um juiz, iniciei-me na prática forense. Eu atuava na qualidade de empregado não-assalariado nos tribunais de Viena e Salzburg, uma cidade rodeada por um cenário particularmente bonito. O escritório no qual eu trabalhava ficava em uma velha e grande torre, exatamente embaixo do campanário e, três vezes por dia, suas vibrações feriam os meus tímpanos.

Passei alguns dos momentos mais felizes de minha vida em Salzburg. Desejava poder fixar residência nesta linda cidade mas, sendo Judeu, nunca teria ascendido ao cargo de juiz. Por isto, parti e abandonei, ao mesmo tempo, a jurisprudência, causando outro grande desgosto ao rabino de Budapeste. Ao invés de optar por uma carreira séria ou procurar um emprego, comecei a viajar e a escrever para jornais. Muitas peças de minha autoria estrearam em diversos teatros. Algumas obtiveram êxitos estrondosos; outras não agradaram.

A diversidade de opiniões com que minhas peças eram acolhidas me ensinou a não considerar nem os aplausos, nem as vaias. Eu sempre acreditei que temos de satisfazer nossos próprios gostos, o resto não importa. Atualmente, tenho pouco apreço por todas as peças que escrevi. Até mesmo as que ainda são aplaudidas no Burgtheater, de Viena, já não me interessam.

Casei-me em 1889. Tenho três filhos, um menino e duas meninas. Creio que meus filhos não são feios nem bobos. Mas pode ser que esteja enganado.

Durante minha viagem pela Espanha, em 1891, o jornal Neue Freie Presse, de Viena, ofereceu-me o cargo de correspondente em Paris. Aceitei apesar de, naquela época, menosprezar e detestar a política. Em Paris, descobri o que geralmente se entende por política e expressei minhas idéias em um pequeno livro intitulado Le Palais Bourbon. Em 1895, retornei a Viena.

Durante os últimos meses na capital francesa, escrevi O Estado Judeu. Não me lembro de haver escrito nada em um estado de tão solene emoção. Heine dizia que, ao compor certos versos, ouviu um bater de asas de águia por cima de sua cabeça.

Eu também, ao escrever o livro, acreditava ouvir algo como um bater de asas sobre minha cabeça. Trabalhava até ficar exausto. Meu único descanso consistia em ouvir, todas as noites, músicas de Wagner, particularmente sua Tannhäuser, ópera a qual eu procurava assistir tantas vezes quantas houvesse espetáculo. Somente nas noites em que não havia apresentaçao, sentia-me invadido por dúvidas sobre se minhas idéias eram acertadas.

No começo, pensava fazer circular meu trabalho sobre a solução do problema Judeu exclusivamente entre meus amigos. Só mais tarde, ocorreu-me a idéia de dar maior divulgação às minhas opiniões. E não pretendia começar uma campanha em prol da causa judaica e sei que a maioria dos leitores ficará surpresa ao inteirar-se deste fato. Parecia-me que a causa judaica exigia ações, não discussões. A propaganda em público não seria senão um último recurso, no caso de não ser ouvido ou de minhas sugestões não serem seguidas.

Terminado o livro, pedi a um de meus melhores amigos que lesse o manuscrito. De repente, durante a leitura, ele rompeu em prantos. A emoção me pareceu muito natural, vinda de um Judeu, pois eu também havia chorado algumas vezes no decorrer do trabalho. Mas fiquei consternado quando me disse que chorava por um motivo bastante diferente. Ele achava que eu havia enlouquecido, e, por ser meu amigo, estava aflito por minha desventura. Saiu correndo, sem dizer mais nada. Após passar uma noite preocupado, voltou e tentou convencer-me a desistir de minha meta, pois todos me chamariam de demente.

Ele estava tao assustado, que prometi tudo que fosse necessário para acalmá-lo. Em seguida, aconselhou-me a procurar Max Nordau, para confirmar que um livro, com as idéias apresentadas em O Estado Judeu, poderia ter sido elaborado por um homem mentalmente são. "Não consultarei ninguém", respondi, acrescentado que, "em função da reação que minhas idéias provocaram em um amigo inteligente e fiel, desistirei de meu propósito".

Enfrentei uma crise muito grave, só comparável ao que ocorre ao jogar-se água fria em um corpo aquecido em altas temperaturas. Mas se o corpo for de ferro, converte-se em aço.

O amigo de quem acabo de falar era responsável pela soma de meus gastos com telegramas. Quando me apresentou a conta, que constava de extensas colunas, percebi que a soma não estava certa. Avisei-o e ele refez a adição. Porém, só depois de repetir a operação três ou quatro vezes obteve os mesmos resultados do que eu. Este fato, pouco importante por si só, devolveu-me minha autoconfiança, pois já que eu sabia calcular melhor do que ele, não poderia ter perdido a razão.

Naquele mesmo, dia comecei a preocupar-me com o Estado Judeu. No decorrer dos dois anos seguintes e também depois, passei inúmeros dias de grande tristeza. Ainda temo que haja mais dias tristes. Em 1895, comecei a escrever o meu diário, que já conta com quatro tomos volumosos. Quando publicá-los, se vier a fazê-lo, o mundo se surpreenderá ao saber as mágoas que senti, quem se opôs ao meu plano e quem me ajudou.

É certo, no entanto, e não cabe a menor dúvida, de que o movimento em prol de um Estado Judeu continuará progredindo. Desde os dias de Basiléia, o Povo Judeu voltou a ter uma representação nacional. Ou seja, o Estado Judeu nascer em seu próprio país. Atualmente, estou tentando conseguir a fundação do Banco e espero que este seja um triunfo igual ao obtido com o Congresso.
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